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Combate a mancha-alvo e ramulária na agricultura brasileira

A agricultura brasileira, pilar da economia nacional, enfrenta desafios fitossanitários que ameaçam a produtividade de culturas como a soja e o algodão.

A agricultura brasileira, pilar da economia nacional, enfrenta desafios fitossanitários que ameaçam a produtividade de culturas como a soja e o algodão. Em um esforço para mitigar essas ameaças, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) promoveu um evento no campo experimental de Formosa-GO, reunindo produtores, pesquisadores e representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). O encontro, focado nas doenças mancha-alvo (Corynespora cassiicola) e ramulária (Ramularia areola), destacou a importância da integração entre pesquisa, inovação e colaboração para garantir a sustentabilidade e a competitividade do setor.

 

MANCHA-ALVO: UMA AMEAÇA EM EXPANSÃO

A mancha-alvo, causada pelo fungo Corynespora cassiicola, é uma das principais preocupações nas regiões produtoras de soja e algodão, como Goiás, Mato Grosso e Bahia. Nédio Tormen, pesquisador da Staphyt, alertou: “A mancha-alvo avança rapidamente no sistema soja-algodão, atingindo proporções críticas”. Fatores como alta umidade (típica de áreas tropicais) agravam a sua incidência, causando desfolha precoce, que compromete a fotossíntese e reduz a produtividade. No algodão, o impacto é particularmente severo: “Uma folha com poucas lesões pode cair em menos de uma semana”, explicou Tormen.

Ensaios apontam perdas de até 20% na produtividade de soja em condições severas. Haroldo Rodrigues da Cunha, produtor e ex-presidente da Abrapa, destacou: “A baixa eficiência das ferramentas atuais de controle eleva os custos de produção e pressiona a rentabilidade”. A gravidade da doença reforça a necessidade de estratégias inovadoras para o seu manejo.

 

RAMULÁRIA: UM DESAFIO PERSISTENTE NO ALGODÃO

A ramulária, causada por Ramularia areola, é outra ameaça significativa, especialmente para o algodão em ambientes quentes e úmidos. Tormen observou: “Quando a umidade persiste por semanas, a pressão da ramulária é intensa, principalmente a partir do meio do ciclo”. A doença compromete a qualidade da fibra e exige múltiplas intervenções, encarecendo a produção mesmo em variedades resistentes.

Edivandro Seron, consultor técnico da Abrapa, enfatizou a interação entre culturas: “A soja, hospedeira da mancha-alvo, deixa um inóculo no solo que infecta o algodão logo no início do ciclo”. Essa dinâmica, comum em sistemas integrados de cultivo, amplia a complexidade do controle dessas doenças, exigindo abordagens coordenadas.

 

A URGÊNCIA DE NOVAS ESTRATÉGIAS DE CONTROLE

O aumento da resistência fúngica a ferramentas tradicionais de manejo, como fungicidas à base de carboxamidas, benzimidazóis e estrobilurinas, reforça a importância de novas soluções. Durante o evento, discutiu-se o potencial de novos ativos que oferecem maior eficiência no controle de mancha-alvo e ramulária, reduzindo a dependência de aplicações frequentes e minimizando impactos ambientais.

Além disso, o manejo integrado enfrenta obstáculos significativos. “Não há cultivares resistentes disponíveis, e a rotação de culturas é inviável em larga escala”, afirmou Tormen. Cultivares modernas de soja, com menor área foliar, mostram suscetibilidade intermediária ou alta em 93% dos casos, tornando os fungicidas a principal ferramenta de controle. Estratégias complementares, como o monitoramento precoce e o manejo adequado do inóculo no solo, foram destacadas como essenciais para reduzir a pressão das doenças.

 

O PAPEL DA COLABORAÇÃO E DA PESQUISA

O campo experimental de Formosa, mantido pela Staphyt, consolidou-se como um hub estratégico para o agronegócio brasileiro. O espaço permite que produtores, pesquisadores e reguladores avaliem de perto os desafios fitossanitários e discutam soluções práticas. José Victor Torres Alves Costa, coordenador-geral da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins (CGAA/MAPA), reforçou: “Observar a gravidade das doenças in loco fortalece a colaboração entre os elos da cadeia produtiva”.

Visitas a campo, conduzidas por Tormen, exibiram ensaios práticos que demonstraram os impactos das doenças e a necessidade de inovações. “Esses encontros conectam ciência, produção e regulação, acelerando o desenvolvimento de estratégias eficazes”, afirmou Tormen. A troca de conhecimentos durante o evento destacou a importância de parcerias para enfrentar os desafios fitossanitários de forma integrada.

 

RUMO A UMA AGRICULTURA RESILIENTE

O evento em Formosa marca um avanço na luta contra a mancha-alvo e a ramulária, reforçando o papel da inovação e da colaboração na construção de uma agricultura mais resiliente. Novas ferramentas de controle, combinadas com práticas de manejo integrado, oferecem perspectivas promissoras para minimizar perdas e promover a sustentabilidade. Como concluiu Seron, “soluções que asseguram produtividade e eficiência fortalecem a posição do Brasil no mercado global”.

Com diálogo contínuo entre produtores, pesquisadores e reguladores, o Brasil transforma desafios fitossanitários em oportunidades para consolidar a sua liderança na produção de soja e algodão. A integração de ciência, tecnologia e práticas sustentáveis é o caminho para um futuro competitivo e ambientalmente responsável.

 

Marcelo Lara

Jornalista especializado em agronegócio